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Uma Carta de Amor

Uma

Uma Carta de Amor

ou

O Homem que Arriscou e Petiscou

                                                                                           por Pau

 

Estou sozinha. Estou a sofrer, muito. Dá-me forças, Deus, para resistir a isto. Não posso afastar os olhos do queijinho fresco, das azeitonas, da pasta de sardinha e do pão. A isto chama-se a tortura do queijinho. Porque não trazem a sopa pelo menos, só a sopa? Bebo a cerveja depressa. Tenho o dinheiro muito bem contado e não dá para gastos desnecessários. Não dá para queijinhos nem para azeitonas. Para mais cerveja sim. Sempre. “É mais uma imperial, se faz favor”. Isto sai-me tão natural, com o meu português tão bom e o meu sotaque tão andaluz, tão espontâneo. Adoro a cerveja. O rapaz do bar traz-ma servilmente com um grande sorriso, e acho que a causa do sorriso é o meu sotaque.

 

Mas que importa a fome e os sorrisos não solicitados, quando amanhã chega o Filipe? O Filipe. Tenho tanta vontade de vê-lo outra vez. Quase não o conheço, se pensar bem. Mas não quero pensar bem. Tenho uma imagem na mente, amanhã às onze horas ele chega, vejo-o ao longe e ele vem até mim, com a franja dos cabelos nos olhos, os cabelos tão escuros nos seus grandes olhos, e ele é franzino, é franzino e forte ao mesmo tempo, quando o Filipe caminha só existem as suas pernas, não, as suas ancas, o Filipe é tããão sexy que só pode ter nascido para me fazer feliz, um homem assim não tem outra finalidade na vida.

 

Enquanto estou perdida nas belas ancas do Filipe, chega o rapaz, que não tem ancas nenhumas, com a sopa na mão, “a sopa da menina, bom apetite!”. Finalmente acabou a tortura do queijinho, “obrigadinha”. Eu falo muito bem português, a minha mãe é portuguesa.

 

Mas tenho vergonha de jantar sozinha. Só quero que chegue amanhã.

 

Janto sob o sorriso doido do rapaz do bar. O Filipe está comigo, está sentado à minha frente, mas é invisível. Vejo-o, mas não posso falar com ele. Peço a conta, a conta chega colada ao sorriso, e o meu dinheiro voa com o sorriso para o balcão. Quando volta com o troco o sorriso é ainda mais exorbitante. E é nesse momento que acontece tudo.

 

O rapaz tem na mão uma folha de papel dobrada. Dá-me o papel e diz-me, “Isto é para si. Não a abra aqui. É daquele senhor…” Olho na direcção em que aponta o sorriso e vejo outro sorriso, com um bigode montado em cima. Tudo pertence a um homem de quarenta ou cinquenta anos, baixinho, gordo, com os olhos cintilantes e o cabelo besuntado de brilhantina. O papel é dele.

 

E vou-me embora. Afasto-me rapidamente do restaurante com o papel na mão. É noite, quero ver o papel e não há luz, a iluminação é mínima nas ruazinhas de Portimão. Fico parada debaixo dum candeeiro e abro o papel. É uma carta, a folha inteira está cheia duma caligrafia trémula, comprimida, apaixonada, vejo muito mal, leio a primeira linha, Desculpe este meu atrevimento, e começo a correr em direcção ao hotel.

 

Deitada sobre a cama, leio isto. “Desculpe este meu atrevimento, se vóçê é livre e não tem ninguem a impedir você”, tenho os olhos abertos e a boca aberta, “podiamos entrar em contacto e quem sabe se poderia-mos ficar grandes amigos”, mas o que é isto? “Apezar de vóçê ser bonita e jeitosa demais quem sabe lhe faltara um homem como eu para completar a sua felicidade.” E já começo a rir sem poder parar. Há uma página inteira disto, que bom!, mas um momento, isto é uma fotocópia. Meu Deus, isto é uma fotocópia, este homem mandou-me uma carta de amor fotocopiada! Rio até às lágrimas, uma carta de amor fotocopiada, o Filipe vai ficar alucinado com isto, ó Filipe, não posso mais!

 

Un momento, un descanso. Es que no sabes el trabajo que me está costando contar todo esto en portugués. Yo hablo bien el portugués, diría que muy bien: mi madre es portuguesa, de Peso da Regua. Pero mi padre es de Chipiona, y yo, aunque amo Portugal y tengo un don innato para seducir a los portugueses, soy chipionera de toda la vida y nunca he conseguido perder mi acento. Así soy yo.

 

Normalmente tenho insónias quando estou apaixonada, mas esta noite adormeço rápido, com a carta nas mãos.

 

Combinei com o Filipe às onze de manhã num bar que se chama A Caneca, e às dez e meia lá estou, a tomar o pequeno-almoço com um sorriso louco na face, a olhar pela janela e a chamar a atenção de todos com uma mini-saia que já sei que não é boa ideia levá-la em Portimão num bar de pequenos almoços em Fevereiro.  

 

Às onze horas e vinte e cinco minutos, aparece o Filipe por fim na porta do bar, e não é o momento que eu imaginava, caminha rápido demais para eu me concentrar no movimento das suas ancas e das suas pernas e em todas as coisas em que eu me quis concentrar. Imaginei este momento em câmara lenta e afinal é rodado vulgarmente em câmara normal, o Filipe vem mesmo depressa e está a falar de coisas estúpidas como bilhetes de autocarro e a sua mãe. Digo “Filipe!” e quero beijá-lo, mas nesse momento chega o empregado e ele gira a cabeça, e da sua boca onde eu queria colocar o beijo saem palavras como torrada e pingado e tudo é impossível. Mas está aqui. A franja dos cabelos nos seus grandes olhos, os jeans justos e o cinto de fivela, o Filipe está aqui.

 

Devia recordar os momentos de paixão que partilhámos na cama do hotel, na casa de banho, no chão, no corredor, nas escadas do hotel, mas o que mais recordo são as lutas que travámos pela posse da carta de amor fotocopiada. Filipe em cima, Filipe em baixo, uma mão a afastar a carta, outra a estender-se para agarrá-la, gritos desesperados, risos malvados, risos de emoção, arquejos, declamações das melhores partes, “dá cá, não sejas má”. “Filipe, não”. “Sim”. “Está bem, sim, mas não a estragues”. “Assim?” “Sim, assim está bom”. “Assim?” “Mas sem carta, vais estragar a carta, é valiosa”, “É uma fotocópia”, “É uma fotocópia de amor” “É original!”, “A fotocópia é mais original do que o original!” “É!”   

 

Estamos deitados juntos na cama, o Filipe abraça-me com os seus braços e as suas pernas, “Há seis erros ortográficos na primeira linha”, diz, e começamos a rir novamente. O melhor (para o Filipe) são as desculpas do pobre homem “por ser tão massador”, e o melhor para mim é o final, “… mas quem não arrisca não petisca, e eu istou a tentar a sorte que acho impossivel, mas á quem digo não á nada impossivel”. “Filipe”, digo, “Não á nada impossivel”, “Uma mulher como tu de vinte e dois anos, com os cabelos longos e o corpo fantástico, com um bigodudo careca de cinquenta, isso é que é impossível!” “Não era careca”, “Era careca, era!” “Não era careca, Filipe”, “Usava peruca?”, “Não usava peruca, já te disse, usava brilhantina”, “Eu vou lá conhecê-lo”, “E eu mato-te, Filipe”.

 

O Filipe fica adormecido. Pego na carta e leio. Eu não vejo tantos erros ortográficos como vê o Filipe, mas isso é normal porque o Filipe é de Mexilhoeira Grande e eu sou de Chipiona. “Conto um pouco do que sou para que faça uma ideia a meu respeito. Sou comerciante, tenho meios que me pode vir a dar grande fortuna. Quanto a meios financieiros istou bem graça a Deus, e tudo o que eu tenho poderá vir a pertencer à mulher que me istimar”. Mas essa mulher tinha de carregar com o Restaurante O Cantinho, para mim isso não era uma perspectiva muito atractiva. “…mas não é só isso na vida que dá felicidade, para mim a felicidade é a educacão compreéncão e amar a Deus sobre todas as coisas”. Que forte, haveria de ir à igreja com ele. “…Não maço mais, espero anciosamente a sua resposta”, então vai ter de esperar um saco de tempo… “Poderá telefonar para o nº indicativo 082-413215-0. Meu nome é Joaquim Pereira, Restaurante O Cantinho, Rua José Joaquim Nunes 13  8500 Portimão. Despeçome desejando-lhe muita saúde e sorte e que tudo de bom lhe aconteça na vida”. Mas é triste, este senhor dá-me pena. “Eu tenho pedido a Deus para que me dé uma Mulher de bom coração e quem sabe será você”, serei eu ou qualquer uma, se depois de tudo isto é uma fotocópia, não é? “Obrigado pela atenção e renovo as minhas desculpas por ser tão massador, mas lá diz o ditado tem que tentar a sorte e quem não arrisca não petisca.” Não conhecia essa expressão, e acho-a genial.

 

Mais tarde, o Filipe mostra-me a vida nocturna de Portimão. Divirto-me muito, ele também, jantamos joaquinzinhos fritos num terraço e depois começamos uma visita a todos os bares de interesse, que não são poucos. Às duas horas da manhã ficamos sem dinheiro, mas com o Filipe tudo é sempre divertido, até ficar sem guita é divertido. Depois voltamos ao hotel para mais diversão, este fim-de-semana está a sair tudo perfeito. Perfeito demais. Sim, nesse momento penso nisso. Um presságio, talvez?

 

Acordo às onze da manhã e o Filipe e eu conversamos, conversas estúpidas de ressaca, e às onze e meia entro na casa de banho para tomar duche. Tomar duche, cantar canções, disfarçar com maquilhagem os restos da maquilhagem de ontem, fazer barulho em geral, abrir os sabonetes, meter os sabonetes no necessaire, sentir a água na nuca, coisas que eu faço nas casas de banho. Oiço a voz do Filipe, “Ouve lá, Bárbara, eu vou comprar o jornal, até já.” “Até já” digo, sem ter ideia do que se avizinha, “até já.”

 

Saio da casa de banho e vou para a cama, deito-me na cama à espera do Filipe. Passam dez minutos e estou aborrecida. Levanto-me e faço coisas, mexo na mala, escolho roupa, leio o livro do hotel, é tudo anúncios, deito-me novamente. Passam vinte minutos e começo a pensar Onde está o Filipe? Passam trinta minutos e noto que as pequenas coisas que o Filipe tinha na mesa de cabeceira já não estão. Passam trinta e cinco e reparo que a mala do Filipe também desapareceu. Passam quarenta e levanto-me da cama com a respiração cortada e o coração nas mãos, começo a vagar pelo quarto, não pode ser, a mala tem de estar lá mas não está, não está lá nada. Porque levou o Filipe todas as suas coisas para comprar o jornal? Isto é uma brincadeira de mau gosto? O que é que é isto? Mas a escova de dentes está lá na casa de banho, então agora ele volta, não é? Fico cinco minutos a olhar para a escova de dentes do Filipe, atolada, aparvalhada, e o pequeno-almoço? Como é que tomo o pequeno-almoço, sem o Filipe? Filipe?

 

Não tomo o pequeno-almoço. Fico sentada na cama a olhar para a porta e para a janela, a manhã inteira. Às duas horas da tarde dou-me conta de que o Filipe não vai voltar e começo a chorar. Às três horas, deixo de chorar. Às três horas e meia, atiro a escova de dentes do Filipe para a sanita e puxo o autoclismo.

 

Passo a noite no hotel por duas razões. A primeira razão, porque no fundo penso que o Filipe pode voltar. Se voltar, ainda posso ir à sanita tirar de ali a escova de dentes e ele nunca saberá nada. Ainda posso perdoar. A segunda razão é que não posso passar pela recepção com a mala, porque não tenho dinheiro para pagar o hotel. Nem sei se tenho para o autocarro que me leva de volta a Espanha. Tenho de pensar.

 

Penso muito. Acho que nunca pensei tanto num só dia. Penso e repenso. Repenso a situação inteira, repenso a minha vida. Às dez horas lavo o rosto, desço para a rua e como um hambúrguer num lugar horrível com luz fluorescente e plásticos amarelos. Triste. Durmo sozinha, mas durmo bem. Na manhã seguinte vejo a escova de dentes que ainda continua no fundo da sanita, e não vou dizer o que faço com a escova de dentes. Podem imaginar, talvez.

 

Depois disso, tenho mais forças, e tenho uma ideia. Há duas possibilidades: a primeira, vou-me embora sem pagar. Se for imprescindível, falo com o homem do hotel e convenço-o de que voltarei dentro de uns dias com o dinheiro, peço boleia e vou para Espanha. E a segunda: a carta.

 

A carta vai funcionar. Este homem gosta tanto de mim que me escreveu uma bonita carta de amor, ou fotocópia de amor, e eu sei que ele me ajudará.

 

Às doze da manhã saio do hotel e encaminho-me para a Rua José Joaquim Nunes. Entro no restaurante e sento-me. Ninguém me atende. Tenho a carta na mão e estou muito nervosa. Não vejo nem o rapaz nem o bigodudo, que vai ser meu amigo a partir de agora. O simpático Joaquim. Vou pedir um copo de vinho verde, este é o meu plano. Mas estou a sofrer.

 

E nesse momento o bigodudo com o cabelo besuntado de brilhantina sai, está atrás do balcão. Estou paralisada. “Como é que eu posso fazer isto?” penso. Mas vou fazer. Vou fazer. Tenho a carta na mão. Devagar, começo a levantar-me, e de repente vejo entrar pela porta uma mulher com cerca de quarenta anos, que cheira a perfume. Ela vai direito ao balcão. “Senhor Joaquim…” diz, com um tremor na voz. E leva a carta de amor, a mesma carta de amor fotocopiada, na mão.

 

Não choro. Começo a sorrir. A rir, mesmo. E dentro de mim começo a sentir uma sensação de imensa liberdade.

 

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