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Funchal é Vulcânico em Agosto

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Funchal é vulcânico em Agosto

 

por Pau

 

 

 

 

As pedras incomodam-me, estou sentada sobre pedras redondas e brancas, estou na praia, mas eu não sou como as outras, eu sou diferente, falo português. Branca demais (ainda) mas sou bonita, alta, tenho o cabelo nos olhos, trago brincos e os olhos maquilhados para vir sentar-me na praia. Tenho vinte anos. Vinte. Vinte. Número redondo.

 

O mar vai e vem, e cada vez que vai e cada vez que vem também arrasta pedras e soam a trovão. Nunca achei isto possível. Há três dias que venho à praia das Pedras. Três manhãs, a primeira manhã vi-o, a segunda manhã pronunciámos as primeiras palavras, palavras quentes e ao acaso, sem sentido, e hoje estou em queda livre com borboletas na barriga e a cabeça vazia, vou com ele ao mar. Não posso fazer outra coisa. Impossível resistir. Amorenado, esbelto, belo e com as primeiras rugas da experiência no rosto, o pescador pescou-me com a sua beleza em cinco segundos. Hoje é o terceiro dia e não posso mais. Quando ele fala, não compreendo uma única palavra, nunca percebi nada do que ele disse, fala com o dialeto da pesca e com o acento do sol, água, chuva, mar, redes de arrasto, tem sal na boca, a sua boca tem gosto de sal e eu estou a tremer. Leva-me para o barco e deixa-me no barco, deixo tudo por ti, a toalha, o livro, deixo o meu passado na praia e caio dentro do barco, ouço o trovão das pedras debaixo de mim. Quero amar-te no barco. A conversa não vai, que necessidade? Vou-te amar em silêncio, ele é belo e incompreensível, faz palavras fechadas e rotas, gosto de ti, gosto do teu silêncio.

 

Aquilo que flutua no mar é um biquíni, bonito e caro. Contigo teve de ser assim, e foi assim. Não houve retorno, agora, agora, o teu corpo é amorenado e perfeito, é tudo ou nada, preciso de ti. Adeus.

 

Ele ainda está lá, na Praia das Pedras, pega no barco dia após dia e arrasta-o para o mar, ele pesca, pesca… E eu podia dizer, sim, é ele, é esse, é ele, mas ninguém me ouve,

 

Escrevo isto desde o fundo do mar.

 

 

 

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1 Comentário »

  1. Qué bonitoooo, Pau!!

    Me encanta cuando dices “fala com… o acento do sol, água, chuva, mar…”. ¡No se puede decir más bonito!

    Beijnhos!
    Chari.

    Comentar por Rosario Solano | Abril 26, 2009 | Responder


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