Centro Cultural Lusófono

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Do Sol ao Rato

Largo do rato1

       Do Sol ao Rato                   

          por Pau

 

 

 

 

A Rua do Sol ao Rato está cheia de sol. Cheia de sol.

 .

Desço a rua. Levo o sol comigo. Desço. Os olhos no chão, vejo a minha sombra que caminha pela calçada portuguesa. Desço. Tenho o sol no cabelo, como uma mão protectora, como os olhos dum amigo. O ar cheira a primavera, a meio-dia, a cozinha regional, a flores. Desço, desço, e os muros das velhas casas dão-me as suas mãos ao passar. Passo de casa em casa. Sou parte da cadeia. Só posso descer. O sol no cabelo. Nos bolsos levo flores roubadas, flores roubadas nos jardins públicos. Flores que já tinham morrido de todas as maneiras. Agora são minhas. Só posso descer. Porque eu sempre fui do sol ao rato, nunca fui do rato ao sol.

 

É por isso que sempre tive o sol no cabelo, e nunca no rosto. Não gostava que ninguém visse o meu rosto. É melhor que ninguém veja o meu rosto. O meu rosto não é como o rosto dos outros. Sou diferente.

 

Chego ao Largo de Rato e fico parada.

 

O Largo do Rato está cheio de ratos.

 

Ratos cinzentos, ratos castanhos, ratos brancos. São reais. Existem. Correm, correm e comem nos restaurantes. Ratos pequenos que nunca morderam ninguém, formam parte da cadeia. Amo os ratos, os ratos são como eu. Mas as pessoas não querem os ratos. E eu posso ajudá-los a todos. Com um grande movimento do braço, mostro o sol aos ratos. Os ratos olham o sol. Os ratos correm em direcção ao sol. Todos, todos. Os brancos, os castanhos, os cinzentos.

 

Só há um rato que não chega ao sol. Um senhor gordo e bigodudo, tomado pelo pânico, pisa um pequeno rato cinzento com a bota e o rato fica esmagado no chão. O rato cinzento aplana-se debaixo da bota. Quando o senhor gordo afasta a bota, o rato é totalmente plano e já forma parte da calçada, diante duma loja na parte mais antiga da praça. Lá ficará para sempre.

 

Os outros foram para o sol. Este é o único que ficou na praça.

 

Deixo uma flor roubada na sepultura do único rato que ficou na praça.

 

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