Centro Cultural Lusófono

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A União dos Fortes

 

pessoas-fortes-1A União dos Fortes

 

por Pau

 

 

 

 

O homem ficou parado na rua com um ar de surpresa no rosto. Tirou um lenço do bolso e enxugou o suor da testa. Olhava o anúncio. Um anúncio muito curioso, sim senhor, muito caricato. Sentiu um pequeno arrepio de prazer. E pensou que finalmente encontrara alguém que compreendia o seu problema. Um amigo.

 

Porque o João Balão desde sempre tinha sido assaltado por uma dúvida existencial. “Sou corpulento? Sou robusto? Imponente? Importante? Ou serei simplesmente um gordo?” Agora tinha a resposta. “Não. Não sou nada disso. Eu sou uma pessoa forte.”

 

E aqui estava uma loja especializada em pessoas como ele. Que maravilha! Imaginou as longas filas de casacos imensos e quentes, pijamas desproporcionados, calças titânicas, cintos quilométricos…. um paraíso para o João Balão.

 

E que bonito nome! Riomar. Fazia-o pensar em rios, e em mares.

 

Carregando com o peso morto da sua extraordinária barriga, arquejando como um boi, começou a subir as escadas até ao primeiro andar.

 

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Pequeno, enrugado, zangado e com uma fita métrica pendurado do pescoço, o Sr. Galindo saiu da parte traseira da loja e observou a imensa forma do João Balão que escurecia a porta. Enfiou os dedos na fita métrica, subiu para uma pequena plataforma, estendeu o pescoço e disse com voz aguda e rouca: “O que é que quer?”

 

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Enquanto isto acontecia na loja, lá em baixo na calçada sob o letreiro estava outro grande homem. O Zé Levante, alma e estrela do circo, grande mestre dos pesos, dos maços e dos troncos de madeira, um homem capaz de arrastar um camião com os dentes e de partir tijolos com a cabeça. O Zé Levante também ficou espantado ao ver o rótulo da loja. “Pessoas fortes….” pensou. “Não há pessoa no mundo mais forte do que eu. E preciso de algumas vestimentas para o espectáculo, justamente, umas malhas de lantejoulas, umas botas… eu vou entrar!”

 

Pesadamente, o Zé Levante começou a subir as escadas até ao primeiro andar.

 

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Ao entrar pela porta da loja a primeira coisa que viu foi o João Balão, magnífico e feliz, a experimentar um casaco de dimensões gigantescas e a perguntar por modalidades de crédito.

 

“Boa tarde”, estrondeou o Zé Levante.

 

O Sr. Galindo saiu de detrás do João Balão, enfiou novamente as mãos na fita métrica, esticou-se todo e, com voz histérica e mal-humorada, cantou “O que é que quer?”

 

“Quero roupa para espectáculos de circo”, troou o Zé Levante, e deu uns passos na direcção dum expositor com grandíssimas capas e gorros enfeitados com brilhantes.

 

“Não, não,” protestou o vendedor, “isto é a secção de roupa de circo, mas esses são para elefantes. Aqui temos o vestuário para forçudos,” e indicou com o cotovelo uma fileira de calções refulgentes e maiôs adornados com estrelas.

 

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Enquanto isto acontecia na loja, lá em baixo na rua estava um pequeno homem, que também olhava para o letreiro da loja com muito interesse. Um homem que era todo coragem e força de vontade, todo constância e solidez, um bom amigo, firme como uma rocha nos maus tempos, calmo como um lago na primavera quando rugia a tempestade, um homem que nunca chorava, nunca vacilava, numa palavra, uma pessoa forte. Chamava-se Salvador.

 

O Salvador ficou pensativo por um longo momento. Pensou na sua vocação de benfeitor e de defensor dos fracos e dos cobardes. “Se eu sou uma pessoa forte,” reflectiu, “convém que me vista como uma pessoa forte”. Aclarou a garganta, ajustou os óculos e começou a subir em direcção ao primeiro andar.

 

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Lá em cima na loja Riomar, tudo era bulício e agitação. O Zé Levante tinha arrancado umas grandes bolas decorativas dos postes do balcão e fazia um estranho número de circo com eles, o Sr. Galindo, muito contrariado, grasnava como um ganso e o João Balão, encurralado num recanto, envolvido no seu grande casaco protector, olhava toda a cena com os olhos quase fora das órbitas.

 

“Mas um momento, um momento, senhores,” apaziguou o Salvador. “O que é que se passa aqui? Há algum problema?”

 

“Aqui não há problema nenhum”, disse o Zé Levante, plantado no meio da loja, segurando com firmeza as duas grandes bolas.

 

“Então o senhor o que é que faz com essas bolas? Parece-me que faziam parte do mobiliário da loja, e o senhor empregado não parece estar muito contente,” apontou o Salvador.

 

O Zé Levante pousou as duas bolas no piso. “Isto,” disse, olhando em volta, “é uma loja para pessoas fortes, é ou não é? Então as pessoas, para poder entrar nesta loja, devem fazer algum tipo de prova, não é?, para poder saber se eles são realmente fortes! Se não, poderia entrar todo tipo de pessoas, franzinos, delicados, pessoas sem vigor…. é preciso classificar, determinar se eles são aptos, com uma prova de força!”

 

Todos olharam para o Zé Levante com uma mistura de espanto, incredulidade, medo e um pouco de riso. Ele prosseguiu:

“Pensei naquela prova do martelo, já sabem, o martelo bate no prato, o peso sobe, a campainha toca, mas só toca para os fortes, decerto, para os franzinos não toca, para os fracos só há silêncio. Mas como nesta loja não há materiais suficientes, há campainha mas não há martelo, vou construir uma prova diferente: uma barra de pesos!”

 

O João Balão assentiu com a cabeça. “Acho que a ideia do senhor forçudo é boa. Eu provarei a minha força, eu provarei, é!”

 

O Zé Levante olhou em volta e o seu olhar finalmente pousou-se num expositor com vinte ou trinta pares de grandes calças cuidadosamente dobradas e penduradas em cabides. O Sr. Galindo, assustado, começou a agitar os braços, impotente, mas o Zé Levante deu um grande passo na direcção das calças, agarrou a barra com as duas mãos e arrebatou-a do expositor, provocando o desabamento de todas as calças para o chão.

 

“Agora temos a prova perfeita!” rugiu, a fixar as bolas na barra. “Perfeita, perfeita!”

 

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Enquanto isto sucedia na loja, lá em baixo na rua sob o letreiro estava um homem, perplexo e pensativo. “Forte”, pensou o homem, “forte. Talvez isso seja o meu problema.” O homem, que era conhecido pelo nome de Gorgonçalo, efectivamente tinha um problema. O Gorgonçalo era como um queijo. Um queijo forte. O Gorgonçalo cheirava como um queijo vencido, estragado, um queijo em fermentação, carregado de tiraminas e putrescinas, de odor impróprio e sabor intolerável. Um queijo que não combina com nada. Um queijo que provoca pesadelos. Assim era o pobre Gorgonçalo. Um verdadeiro fondue de cheiros, todos horríveis. “Forte,” resmungava ele, “eu sou uma pessoa forte. Vou subir.”

 

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Em cima, na loja, o Zé Levante elevava e baixava a barra de pesos aparentemente sem esforço, e os fortes lá reunidos conversavam.

 

“Podíamos juntar-nos todos os fortes de Lisboa,” dizia o João Balão, sonhador, “para criar uma união de fortes…”

 

“Uma associação cultural!” apostou o Salvador.

 

“Cultural e recreativa!” acrescentou o Zé Levante.

 

“Cultural e cívica!” moderou o Salvador.

 

“Cultural e desportiva!” disse o Zé Levante, que não se identificava com aquilo de cívica.

 

“Cultural e beneficente!” rectificou o Salvador, só para provocar.

 

“E que nome lhe damos à nossa união?” ponderava o João Balão. “Podia chamar-se talvez a Confederação de Pessoas Fortes de Lisboa … e Arredores … um nome assim era bonito…”

 

“Não!” vozeou o Zé, já a deitar a barra de musculação no piso. “A Liga dos Fortes… de Portugal!”

 

“Fortaleza Portuguesa!” gritou o Salvador triunfante. “Com certeza! Muito melhor!”

 

“Não, não…” começou a discutir o Zé Levante, mas nesse momento cortou-se-lhe a voz. Olhou na direcção da porta, preocupado. Os outros também sentiram que se passava qualquer coisa que saía do ordinário.

 

“O que é que é esse cheiro estranho?” perguntou o Sr. Galindo, que não tinha participado na discussão, apesar de ter gosto por brigas e contendas.

 

“Parece que está a aumentar…”

 

“Está a subir pelas escadas….”

 

“Que fedor, meu Deus…”

 

Todos torciam o nariz.

 

“São esgotos, efluentes…”

 

“Não, é couve-flor putrefacta…”

 

“De maneira nenhuma. É queijo.”

 

“Queijo feta.”

 

“Não. É um camembert.”

 

“Não, não, é um queijo mole coagulado e coberto por fungos,” disse o Salvador, que tinha pretensões de gourmet. “Come-se em certas aldeias do Alentejo, para acompanhar o vinho tinto. É um aperitivo.”

 

“Impossível… é fedorento… é indescritível… é…”

 

E o Gorgonçalo já tinha chegado à loja, já estava na soleira da porta. Avançou com passos hesitantes. “Com licença, meus senhores…”

 

Amedrontados pela terrível aparição olfactiva, o Sr. Galindo e os seus três clientes encolheram-se, muito juntos, procurando refúgio detrás do balcão. Mas o Gorgonçalo já tinha reparado na barra de pesos no chão.

 

“Desculpe… o que é isto?”, perguntou com interesse.

 

O Zé Levante aclarou a garganta. “É uma prova de força,” explicou. “Para pessoas fortes.”

 

“Ah!” O rosto do homem-queijo iluminou-se de alegria. Grande e corpulento, o Gorgonçalo sempre gostara de jogos de força. Preferia-os aos jogos de estratégia e aos jogos de habilidade, que só lhe davam dor de cabeça.

 

“Com licença,” zumbiu. E agarrou fortemente a barra de pesos e hasteou-o acima da sua cabeça.

 

Os poderosos sovacos do Gorgonçalo terminaram com tudo. Vendedor e clientes desfaleceram e desabaram no chão. Quando ele baixou a barra e a posou aos seus pés, surpreendeu-se de não receber aplausos, mas silêncio. Olhou estupefacto para a pilha de pessoas desmaiadas no chão.

 

“Os senhores… ficaram indispostos?” foi o único que lhe ocorreu dizer. Talvez se tratasse duma intoxicação massiva, algum alimento em mau estado…

.

O Zé Levante foi o primeiro em recuperar os sentidos. Seguiu-lhe o João Balão, o Salvador e o Sr. Galindo, por essa ordem.

 

“O Senhor desejava alguma coisa?” perguntou o Sr. Galindo, que o trauma deixara muito mais cortês.

 

“Roupa nova,” respondeu o Gorgonçalo, ruborizado. “Acho que a roupa que visto não está muito fresca….”

 

O Salvador levantou-se e tomou o braço do Gorgonçalo. “Meu caro Senhor, cheirar bem e agradar à gente não é questão de comprar roupa nova. Trata-se de lavar a roupa que já tem.”

 

O Gorgonçalo olhou para o Salvador com compreensão. “Acho que também é questão de tomar duche de vez em quando, não é?”

 

“É, é,” assentiram todos.

 

“Eu acompanharei o Senhor,” disse o Salvador. “Conheço uma loja muito especializada, vende sabonetes, esponjas…”

 

E juntos saíram da loja do Sr. Galindo. “Voltaremos!” gritou o Salvador, já na rua.

 

O Sr. Galindo dispôs-se a abrir todas as janelas.

 

“Um cafezinho?” propôs o Zé Levante.

 

“Vamos lá a tomar café!” disse o Sr. Galindo com entusiasmo, e empunhou as chaves da loja.

 

E o João Balão, envolvido no seu novo casaco, sentiu que fizera quatro bons amigos esse dia. Uma forte amizade. A união dos fortes.

 

 

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1 Comentário »

  1. ¡Simplemente genial!

    Pero qué imaginación… 🙂

    Bjnhs,
    Chari.

    Comentar por Rosario Solano | Abril 26, 2009 | Responder


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