Centro Cultural Lusófono

A página dos sócios do CCL

Raquel Tavares em Sevilha. Ah, fadista!

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Ai, a Raquel, a portuguesa, desde Triana até Alfama, ouve-se este fado, pelas tavernas… A Raquel, na noite de 1 de Dezembro de 2015, cantou fado, e os sevilhanos responderam: “Ah, fadista!” Com a Raquel Tavares, há, houve e haverá fadista. Esta alfacinha do bairro de Alfama, berço e coração do fado, chegou, viu e venceu no coração da Sevilha eterna que ficou prostrado a seus pés. O seu bisavô,  contrabandista alentejano, cruzou a raia e apaixonou-se por uma sevilhana cigana e raptou-a num mau vento de Espanha que, entretanto, desta vez sim, foi um bom casamento. Ai, a Raquel, a sevilhana…

A Raquel não veio a Sevilha, apenas voltou à sua terra, num bom vento que trouxe o seu barco. No palco, uma mulher do fado, senhora do teatro, dona do auditório e rainha da noite. A Raquel lisboeta, menina e moça, tão pura, a Raquel sevilhana e cigana, tão moura. Mulher de raça, mulher do fado, duma beleza “mui daqui”, muito sevilhana, gira e guapa, num “mantón de Manila” contendo os meandros enfeitiçantes do seu rio caudaloso, num tecido que não foi bordado à pressa, envolvendo um barco de espanto, envolvendo o meu olhar. Raquel, “teu corpo, é um barco” que já tem dois portos, na margem do Tejo e na margem do Guadalquivir. Vi e ouvi uma flamenca que cantava fado, uma fadista que se mexia flamenca. Uma voz incrível, uma garganta maravilhosa, ora poderosa ora melodiosa, não só furação desgarrado mas também uma caixinha de música.

A Raquel cantou um repertório que foi do fado castiço ao fado atual. Um concerto de fado total: uma voz inigualável e três guitarristas sem par; guitarra portuguesa, guitarra clássica e baixo, enorme guitarrada! Fez uma homenagem à grande Bia, dona Beatriz da Conceição, se calhar a  sua maior referência, que morreu há uns dias. Entre lágrimas, cantou: “Deste-me um beijo e vivi”, fado da Bia pelo qual a Raquel esperou vinte anos até sentir que podia cantá-lo. A Raquel cantou para a Bia, para a mãe que estava connosco na plateia, e para nós. A Raquel cantou também em espanhol, com um sotaque andaluz mais-que-imperfeito mas que acendeu mais-que-perfeitamente o público sevilhano que, mesmo sem compreender as letras todas, compreendeu toda a poesia, não é por acaso que o fado e o flamenco caminham de mãos dadas, voam juntos num mesmo espírito. A Raquel pôs no cabelo um pente e um cravo vermelhos e já, já é, era e será, de Sevilha.

O público, em pé mais duma vez, finalmente bateu-lhe palmas como só nesta terra sabem bater: “por bulerías”. Nesta terra, estas palmas sevilhanas são sinónimo do sucesso dum artista. A Raquel sabia. E a Raquel recebeu as palmas com alegria e lágrimas nos olhos. Ela soube que triunfou.

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A Raquel Tavares foi-se embora, levou o seu barco—teu corpo!—para outra margem, mas ainda ressoam os ecos da sua voz imensa, ainda batem os nossos corações ao ritmo do fado e da bulería. No dia seguinte, Sevilha, é apenas um deserto porque não se encontra perto… de ti. Deixaste-nos num ai de felicidade pela tua presença e de saudade pela tua partida! Prometeste voltar mais uma vez a esta terra. Cumpre a promessa, volta e… Dá-me um beijo e viverei.

Jaime Martínez,  membro do Centro Cultural Lusofono

2 de dezembro de 2015

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Março 9, 2016 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário